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    Business Ethics... just business? Print E-mail
    por Ricardo Fortes da Costa

    Este artigo foi publicado na edição de Agosto/Setembro/2008 da Revista RH Magazine.


    I – Ética: mais uma buzzword?

    Ética: eis um termo quase omnipresente nos tempos que correm.

    Desde há muito que já era politicamente correcto falar de ética, sendo frequente a sua menção em seminários, colóquios e conferências, fluindo por um manancial de bem intencionadas declarações de princípios.

    No entanto, desde que este conceito começou a impactar de forma dolorosa nos negócios e, consequentemente, nas poupança e no bem estar de muitas famílias, a ética passou a ser um imperativo incontornável nas economias modernas.

    Quem não se lembra do escândalo da Enron, da World.com ou da Xerox? Quem não se lembra como uma das mais prestigiadas firmas de consultoria e auditoria do mundo desapareceu em poucas semanas devido a este escândalo? Efeito devastador deste mundo globalizado em que vivemos, devido ao qual excelentes profissionais viram o seu emprego ameaçado. E tudo resultado da falta de ética de outros profissionais que, trabalhando do outro lado do mundo, representavam a mesma “marca corporativa”...

    Estes acontecimentos mudaram para sempre a forma como podemos olhar para a ética.

    Problema que nos preocupa desde a alvorada da humanidade, já Aristóteles definia Ética como “...a ciência prática do bem.”. Eis uma definição particularmente feliz, uma vez que, pela sua simplicidade, é facilmente entendível, e pela sua natureza operacional (ênfase na vertente prática, do dia-a-dia) deixa claro desde logo que um padrão ético de conduta é, na sua essência, uma opção individual e íntima, mesmo que influenciada pelo quadro de referência cultural e social que nos envolve.

    A ética surge assim como um saber prático, que visa regular a nossa acção e o nosso modo de ser e estar em função de um conjunto de valores e princípios morais, que teriam por fim último o alcance da felicidade e do bem comum. A ética surge assim como uma peça fundamental do nosso processo de tomada de decisão, definindo prioridades numa teia de interesses que as situações e o meio envolvente nos criam.

    Já Kant defendia uma enunciação geral de ética que o nosso bom senso tantas vezes nos evidencia: trata com os outros da mesma forma que gostarias que tratassem contigo. Puro bom senso, na verdade!

    Curiosamente, aquilo a que assistimos é à aparente escassez deste elementar bom senso no nosso quotidiano, ou pelo menos a uma “diversidade aplicacional” difícil de entender: no emprego há quem declare uma ética que procura praticar (pelo menos em frente aos chefes), havendo por vezes uma outra ética para os clientes (pelo menos para os mais rentáveis...), e caindo-se por vezes na tentação de tratar os concorrentes com total ausência de ética (porque isso da ética é para os “nossos” e não para o “inimigo”).

    Já em casa há quem tenha uma ética “privada”, menos exigente face à declarada no emprego, que por sua vez é mais exigente que aquela que é praticada com os amigos.

    Fazendo parte das elites esclarecidas, há quem proclame aos filhos uma ética exigente e inatacável (que se quer transmitir como valores fundamentais, mas que muitas vezes é esquecida na prática, pelo exemplo). Fazendo parte das classes menos instruídas, há quem seja muitas vezes mais transparente, explicando desde cedo aos descendentes que aquilo que se faz dentro de casa não é para comentar fora dela...

    E porquê esta diversidade? Porque as nossas opções e os nossos comportamentos dependem da solidez do nosso edifício moral, que é construído ao longo da nossa vida, através das experiências que temos e da educação que nos dão. Quanto mais sólidos os alicerces, mais firmes e coerentes  as opções que cada um de nós toma nas mais diversas situações do nosso quotidiano.

    Em síntese, poderíamos afirmar que Ética diz respeito a valores e a princípios que visam a felicidade e o bem comum, os quais seriam operacionalizáveis através de comportamentos concretos (aquilo a que alguns chamam de Moral), ou seja, através da vivência dos valores éticos pelos Homens.

    Então, se assim é, porque é que parece haver uma ética social e outra empresarial? O imperativo ético não deveria ser geral e universal? A ética não deveria ser uma ciência da acção total (e una) do homem?

    É verdade que assim devia ser, e também é verdade que assim não parece... Porquê? Porque muitas vezes ainda persiste a ideia de que lucro e ética não são compatíveis!

    II - Ética e lucro: serão mesmo incompatíveis?

    Muitas vezes ouvimos frases como “... isso da ética é tudo muito bonito, mas, na hora da verdade, o que prevalece é a busca do lucro e nada mais interessa!” ou então como “... hoje em dia só se fala em ética porque isso está na moda e dá dinheiro!”.

    Mesmo que muitas vezes ditas com sinceridade, parecem-me generalizações fáceis, e geralmente erradas no seu raciocínio de base.

    Diz-nos o vulgar bom senso que um comportamento anti-ético não compensa (pelo menos num contexto em que haja liberdade entre as partes). De facto, a não ser por motivos externos ao indivíduo, ninguém, no seu perfeito juízo se deixa prejudicar sistematicamente pelo mesmo interlocutor. Na melhor das hipóteses, deixa-se prejudicar uma única vez, devido à sua boa fé e crença na seriedade ou bondade do interlocutor. É o princípio inerente ao velho ditado: “...à primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer.”!

    Assim, qualquer indivíduo ou organização, livres de optar, votarão ao ostracismo quem com eles se comportar de forma pouco ética. Poderemos por isso dizer que uma postura pouco ética pode compensar, gerando benefícios no imediato (curto prazo), mas jamais compensará a médio ou longo prazo.

    É por isso que podemos concluir que os ambientes favoráveis à liberdade de escolha (democracias e economias de mercado livre) são, por definição, encorajadores da assunção de uma postura ética por parte de indivíduos e organizações.

    Esta conclusão parecerá polémica para aqueles que defendem que a ética só prevalece por via da coacção, o que evidencia o “mau fundo” da natureza humana. Esta linha de raciocínio baseia-se na constatação de que as sociedades sentiram necessidade de criar sistemas normativos e reguladores da vida em sociedade, bem como especificamente da actividade económica e das trocas comerciais.

    Só que este raciocínio peca por confundir ética com legalidade. A primeira regula a nossa conduta, seja ela legal ou não. O normativo legal é uma primeira framework de referência, geralmente usada para dirimir disputas entre partes e interesses litigantes. É a primeira camada de regras, que define como deveremos conviver em sociedade. Mas ninguém é feliz ou cresce como ser moral apenas por cumprir a lei! É por isso necessária uma segunda camada, que nos determine as decisões, pela sua justeza e benefício geral e não apenas pelo mero enquadramento legal.

    Muitas decisões, mesmo que inteiramente legais, são injustas ou imorais. Quem nunca se sentiu vítima deste tipo de situação, num qualquer momento da sua vida?

    Prefiro acreditar que as pessoas agem por convicção ética em geral, ou, na pior das hipóteses, porque o bom senso lhes diz que ganham mais em ter uma postura ética do que em persistir na atitude contrária. Este raciocínio enfatiza a recompensa social da postura ética e não necessariamente o medo pela punição da postura não-ética.

    Mesmo assim, algum cinismo instalado no mundo empresarial tenderá a argumentar que as empresas só assumem preocupações de natureza ética, deontológica, ambiental ou de responsabilidade social porque entendem que isso lhes traz vantagem competitiva. Pode persistir o argumento de que os gestores defendem essa postura na expectativa de maximizarem lucros, e não pela evidência da justeza e primazia dos imperativos éticos  per se.

    ... so what?

    Clarifiquemos ideias: as empresas (como qualquer outro tipo de organização) é feita de pessoas e para pessoas. Assim, as empresas têm de ter uma finalidade social que justifique a sua existência. No limite, uma empresa que seja inútil não sobrevive num mercado livre, porque não terá clientes que comprem os seus produtos ou serviços.

    Parece assim evidente que as empresas deverão servir um fim último mais elevado do que o lucro (devem servir a sociedade), procurando promover o bem comum e o desenvolvimento económico, através da geração de emprego, da satisfação dos seus colaboradores, da satisfação dos seus clientes com os produtos/serviços que vendem, dos seus accionistas (com o retorno que geram do investimento feito) e mesmo dos fornecedores (que são igualmente um parceiro a não descurar na cadeia de valor).

    Aquilo que parece uma enunciação mais bonita que verdadeira, é uma evidência que tem de ficar clara nas empresas que operam em mercados livres: o seu fim último é garantir a satisfação dos seus stakeholders e com isso contribuir para o desenvolvimento da sociedade onde se integram. Por isso mesmo, uma empresa privada não pode deixar de ser por isso uma entidade moral.

    E então onde encaixa neste raciocínio o tão (mal) afamado princípio/imperativo da rentabilidade/lucro?

    É simples: o lucro, enquanto resultado positivo da actividade económica desenvolvida, não constitui o fim último das organizações, mas sim uma condição necessária e indispensável para a sua sobrevivência a prazo. No entanto, o facto de ser uma condição necessária, não a torna na única condição a cumprir. E é aí que a ética entra na vivência das organizações...

    Ousaria inclusive afirmar que, procurando a empresa o benefício e satisfação dos seus stakeholders, e sendo o lucro a expressão de uma gestão adequada dos recursos colocados à sua disposição para o exercício dessa mesma actividade, a procura do lucro transforma-se, por definição, num imperativo ético das empresas.

    E não pensemos que este é um argumento falaciosamente desenvolvido para fundamentar a ética do lucro: este mesmo imperativo ético existe em organizações sem fins lucrativos, sendo que em vez de lucro falaremos de “gestão rigorosa” ou “combate ao desperdício”. O fundamento desta lógica é que o desperdício ou mau uso de recursos destroem valor, pelo que geram necessariamente menor benefício ou satisfação para os stakeholders. E quem poderá dizer que isto não é eticamente reprovável?

    Em conclusão, espero que os empresários e gestores deste país tenham, desejavelmente, uma postura ética porque genuinamente acreditam que estão a fazer o que está certo. No entanto, sinto-me profundamente feliz por viver numa sociedade e num sistema económico que, por definição, encorajam o assumir dessa postura aos que não se revêm nela, quanto mais não seja pelos benefícios claros que a mesma traz.

    Em bom rigor, não faço a mínima ideia se a Body Shop não faz testes dos seus produtos em animais porque gosta deles ou porque acha que terá mais clientes por causa disso. Mas o que me importa realmente é saber que na sociedade em que vivo podem aparecer empresas que se afirmam e prosperam devido a um posicionamento ético e socialmente responsável!

    III – Business Ethics: cultura de regras ou uma regra para a vida?

    Assumindo que a Ética é um imperativo nas empresas modernas (por razões espiritualmente mais elevadas ou por razões mais economicistas), importa perceber como é que a mesma se traduz no dia-a-dia das organizações.

    O passo mais fácil (e muitas vezes o único que é dado) é criar um Código Deontológico que enuncie os princípios éticos da organização e regule a conduta desejada de todos os colaboradores.

    Sendo fundamental para tornar claro o que devem ser as linhas de conduta para todos os que trabalham na empresa, evitando equívocos e sub-culturas éticas distintas, não me parece que seja no entanto o mais importante.

    O que mais vemos em nosso redor são organizações que proclamam fortes princípios éticos, mas que não os praticam no seu quotidiano. Os valores morais são assim proclamados, mas não vividos. E isso gera inevitavelmente a descrença e o descrédito.

    Por outro lado, sistemas fortemente normativos e reguladores da conduta profissional são potencialmente geradores de burocracia e formalismo, desencorajando fortemente a tolerância ao erro e a abertura à criatividade e inovação.

    Isso não significa que devamos deixar cair a figura do Código Ético (até pela forte carga simbólica que o mesmo possui). Devemos é potenciar o seu uso e prática, tornando-o simples, facilmente  memorizável e operacionalizável, de forma a que seja uma ferramenta da nossa acção prática e não apenas um documento formal.

    Para isso, deve o mesmo proclamar acima de tudo princípios e normas gerais, e nunca cair na tentação de regular todos os aspectos da conduta profissional.

    E porquê? Porque excessiva regulação cria rigidez organizacional (por via da burocracia e do formalismo), além de partir do princípio (errado) de que as pessoas ou são limitadas no seu discernimento ou “criativas” na sua conduta moral (porque incapazes de interpretar princípios com razoabilidade e justeza, de forma a fazer deles a melhor aplicação prática).

    Se não deixarmos espaço para a livre tomada de decisões em função do contexto em que os problemas se colocam, nunca teremos organizações flexíveis o bastante para darem respostas adequadas e inovadoras às exigências do mercado, em tempo considerado útil.

    Numa multinacional, por exemplo, é comum existir um sólido corpo de regras que visam gerir o risco operacional (tendo em conta a complexidade das operações e interacções existentes numa organização internacional) que se encontram normalmente publicadas e acessíveis a todos os colaboradores, um Código de Ética simples e claro e um conjunto de valores corporativos  geralmente divulgados no momento de integração dos colaboradores.

    Sendo esta a framework de trabalho habitual numa multinacional, o espaço para a tomada de decisão não deixa de existir, estando habitualmente definido na respectiva matriz de autorizações da organização, de forma a ficar claro os limites de responsabilidade de cada interveniente, uma vez que a livre tomada de decisões não pode deixar de implicar uma cultura de responsabilidade.

    Assim, o primado dos princípios sobre as normas parece assumir-se nos tempos que correm como um novo imperativo ético, que coloca na atitude dos gestores a grande responsabilidade do seu cumprimento efectivo. A liderança como modelo e exemplo de virtudes éticas não é assim dissociável do discurso ético.

    Por fim, uma reflexão final sobre uma afirmação muito em voga nos dias de hoje sobre este tema:

    “A Ética Empresarial implica que as organizações olhem para as pessoas como fins em si mesmos e não como meros meios para se alcançarem outros fins.”

    Este princípio não poderia estar mais correcto, desde que o mesmo seja assumido de forma bilateral...

    Esta ressalva de princípio é necessária porque muitas vezes se profere esta frase com um sentido que está claramente influenciado por uma espécie de “visão marxista”, que assenta no pressuposto (também presente na legislação laboral portuguesa) de que a parte mais fraca é sempre o trabalhador e a parte mais forte (e, logo, potencialmente mal-intencionada) é sempre a empresa.

    Este vício de pensamento é no entanto contrariado muitas vezes pela força dos factos...

    É que tanto é verdade que a empresa pode olhar para os colaboradores de forma meramente instrumental, tendo deles uma visão redutora e meramente economicista (logo, não ética), como também pode o colaborador ter da empresa uma visão meramente utilitarista, em que a encara como um mero meio para obter o seu salário (seja lá de que forma for), o que é igualmente amoral.

    Basta lembrarmo-nos  de quantas empresas fecharam as portas em Portugal porque não aguentaram sucessivas greves, de motivação meramente política... A Ética é algo a que temos direito, sem dúvida, mas apenas se for também um dever de todos nós.

    Hoje, o verdadeiro desafio que enfrentamos é o de ter a sabedoria de construir um futuro que se quer cada vez mais ético, através daquilo que se faz em todos os pequenos momentos do dia-a-dia.

    Estar à altura do desafio é com cada um de nós...


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